Etanol e genocídio?
Numa reaparição espetacular, Fidel Castro escreveu dois artigos, no jornal do PCC, órgão oficial do partido, com títulos que dizem tudo. “Condenados a muerte prematura por hambre y sed mas de mil millones de personas en el mundo”, de 28 de março, e “La internacionalizacion del genocidio”, de 4 de abril. O centro do argumento é que a estratégia de Bush para livrar os Estados Unidos da dependência do petróleo, em especial do venezuelano, trará fome e destruição do meio ambiente. Ou seja, prevê que haverá, nos EUA e na América Latina, substituição da produção de alimentos por milho para etanol. E que isso resultará na escassez do produto e em aumento dos preços. De acordo com os textos, não há como substituir petróleo por etanol sem provocar a concentração da propriedade, sua desnacionalização, redução da produção de alimentos, super exploração do trabalho e devastação do meio ambiente.
Nas críticas, que receberam o aval de publicações do peso do New York Times e do The Economist, não fica claro qual é posição de Cuba em relação ao etanol extraído a partir cana de açúcar. Acontece que o Brasil produz quase18 bilhões de litros de etanol da cana. Entre os produtos que estão sendo pesquisados, no país, para a produção do biodiesel, encontram-se a mamona, a pinha, a soja, mas não o milho.
Como se sabe, ocupamos 6 milhões de hectares para produzir açúcar e etanol, ou seja, menos de 20% das terras degradadas existentes no país. A soja ocupa 23 milhões de hectares e o milho, 16 milhões. Logo, não há como comparar o Brasil com os EUA. É evidente que toda política de aumento de produção da cana e de outras culturas, para gerar biodiesel, tem de ser acompanhada de medidas preventivas para evitar a monocultura, o monopólio, a degradação do meio ambiente e a exploração servil do trabalho.
O Brasil não é apenas produtor de etanol e biodiesel. É o maior produtor de máquinas e exportador de tecnologia para esse segmento de mercado, além de ser exportador de capitais. Tenho insistido nesse aspecto, já que o interesse nacional vai além da exportação pura e simples de uma matéria prima. Firmamos, com os EUA, acordos para a normalização internacional do etanol, desenvolvimento de pesquisas e exportação de tecnologia e, por fim, para o estabelecimento de um mercado, na bolsa, dessa commodity.
Os críticos da política de substituir petróleo por etanol, ao não destacarem a situação particular do Brasil, não só atacam Bush e sua política de apoio e subsídio à produção de etanol do milho, como deixam entender que, em toda a América Latina, o Brasil se aliará aos EUA para substituir a produção de alimentos por milho para etanol. O Brasil, no entanto, não tem nenhuma influência na política norte-americana de produção de etanol. Ao contrário, é prejudicado pelo subsídio dado ao etanol extraído do milho, e vem lutando para que ele seja derrubado. Não se pode confundir o interesse brasileiro em produzir etanol, já que nossos carros são flex e não temos reservas de petróleo que garantam o nosso futuro, com qualquer política de substituir a produção de alimentos pela produção de biodiesel.
O Brasil pretende aumentar a produção de etanol para 23,3 bilhões de litros, em 2010, e chegar a 3,3 bilhões de biodiesel (nossa produção atual é inferior a 1 bilhão). Entendo que todos os países da região, inclusive Cuba e Venezuela, podem e devem produzir etanol, a partir da cana de açúcar, e biodiesel, de várias oleaginosas, sem prejuízo da produção de alimentos, sem degradar o meio ambiente ou explorar seus trabalhadores. Para isso existem o Estado e as políticas de proteção ao meio ambiente, ao trabalho e à concorrência.
O que não podemos é, a pretexto de combater as políticas do governo Bush, inviabilizar a produção do etanol ou do biodiesel, pois são complementares e alternativos ao petróleo, da mesma forma que a energia hidrelétrica, nuclear, eólica e solar. Podem e devem ser utilizados com parcimônia e dentro de uma política contra o aquecimento global.
Zé Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil |