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Fatos e Fotos

Algo de muito errado está acontecendo no Brasil. Se compararmos a pesquisa de opinião divulgada pelo DataFolha, no domingo passado, com o noticiário e a opinião de articulistas nas TVs, rádios e jornais de todo Brasil, vamos constatar uma profunda dessintonia entre as críticas da elite e o que a maioria da população pensa sobre o governo. Mais ainda. Fica evidente que, nem mesmo na chamada classe média, tem sustentação a avalanche de críticas e ataques ao governo federal, ao próprio presidente Lula e ao seu partido, o PT, que, aliás, retomou os níveis de aprovação que tinha em 2004. Para sermos mais exatos, há uma clara ruptura entre a percepção do noticiário da mídia brasileira sobre a avaliação do governo Lula e o que a população, incluindo aí a classe média, acha realmente dele.

Pelo noticiário da mídia e os comentários de seus articulistas, o governo Lula, fracassado, deveria mais era enfiar a viola no saco e ir para casa. Não é o que pensa população brasileira, que, em sua maioria, apóia o governo. Isso não significa que o governo e o PT não tenham cometidos erros, ou não existam políticas públicas equivocadas e problemas sociais e econômicos não resolvidos. Afirmar isso seria sinal de profunda falta de bom-senso, já que o Brasil é um país com enormes e complexos problemas.

No entanto, é preciso reconhecer que a maioria da sociedade tem maturidade e compreende que um governo como o de Lula, e nas condições brasileiras, não teria possibilidade de, em quatro anos, fazer mais do que fez no combate à pobreza, na geração de empregos, na retomada do crescimento econômico e na recolocação do Brasil no cenário internacional, com ênfase na integração sul-americana.

O principal problema da oposição está em não reconhecer esse cenário. Por isso, na falta de melhor argumento, tenta desidratar ideologicamente o governo, quando está mais do que evidente que o eleitorado confirmou, em 2006, uma opção de centro-esquerda. Ou seja, cabe à oposição fazer oposição democrática e construir sua própria opção de centro-direita.

O que identifico na oposição e nos movimentos que articula – em minha visão, desde fevereiro de 2004 – é uma certa tendência ao rompimento do pacto democrático, construído na Constituinte de 88. Por que digo isso? Pelo seu comportamento nos episódios Waldomiro Diniz e escândalo do mensalão. Seus líderes, no lugar investigar e culpar, preferiram, à falta de provas, a denúncia fácil e os holofotes da mídia. Eles estão certos em relação à necessidade de o Parlamento ser um fiscal implacável de seus componentes. Mas as regras têm de ser absolutamente transparentes, e valer para todos.

É do jogo democrático a oposição buscar apoio nas ruas. Portanto, são mais do que legítimos movimentos, como vimos recentemente na mídia, “Eu quero vaiar Lula” ou “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”, mais conhecido como “Cansei”. É só preciso atenção, caso sejam movimentos artificiais, sem apoio popular. Porque, sem apoio popular, o “fora Lula”, as tentativas de impeachment, a negação pura e simples do governo, o desrespeito diário e permanente à instituição da Presidência poderão vir a cobrar um alto preço à estabilidade democrática.

Não há, ainda, ameaças a essa estabilidade. O problema central é que os fatos não batem com as fotos; a realidade do país é diferente da foto apresentada por boa parte da mídia e oposição. E, mesmo quando a foto reflete problemas reais que requerem atenção, correção de rumo e atuação mais eficiente do Executivo, o ímpeto de atingir o governo e negar sua legitimidade e legalidade é tão intenso que, intencionalmente, tiram a foto de foco.

As fotos, diferentes dos fatos, não impressionam a maioria da população brasileira, que sabe o que já conquistou no governo Lula e o que ainda falta conquistar. Ela quer o desenvolvimento econômico e social do país, e a distribuição de seus frutos. É para isso que esses brasileiros confirmaram Lula na Presidência. É essa a sua cobrança.

 


Zé Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil
(artigo publicado no Jornal do Brasil, em 09 de agosto de 2007)

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