De Olho na Bolsa: Cresce a emissão de ADR, mesmo com IOF
Se a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2% sobre as aplicações de estrangeiros em ações trouxe um efeito inicial, prejudicando o volume da bolsa, o IOF de 1,5% sobre as emissões de American Depositary Receipt (recibos de ações negociados em Nova York) não causou o efeito que o governo gostaria - de reduzir a procura por esses papéis. Um levantamento feito pela Link Investimentos mostra que, entre 19 de novembro (data em que o IOF de 1,5% entrou em vigor) e 14 de dezembro, houve uma emissão de R$ 150 bilhões de ADRs nos dez programas mais líquidos, como os de Vale, Petrobras, Bradesco, AmBev e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Essa cifra significa um crescimento de 14,72% quando comparada com a emissão dos mesmos programas de ADRs um mês antes - entre 20 de outubro e 18 de novembro. O crescimento é ainda maior se comparado com um prazo um pouco mais extenso, entre julho e setembro, quando as emissões foram de apenas R$ 29,37 bilhões .
O resultado do levantamento surpreende até porque o objetivo do governo com o IOF de 1,5% era exatamente o contrário: reduzir a fuga de recursos da Bovespa para os ADRs que começou a ocorrer com o IOF de 2%. Para se ter ideia, entre 20 de outubro, quando começou a valer esse IOF, até 6 de outubro, o volume médio diário dos ADRs brasileiros cresceu 46%, considerando-se os 90 pregões anteriores. No mesmo período, o volume de negócios na Bovespa cresceu 20%.
No entanto, ao mesmo tempo que a emissão de ADRs cresceu após o IOF de 1,5%, o volume de negócios com esses papéis na bolsa americana caiu 20%, comparado com um mês antes. No mesmo período, o giro da Bovespa teve uma queda menor, de 13%, segundo o estudo da Link. Ou seja, o número de novos ADRs cresceu, mas o volume de negócios com esses papéis caiu. Para a analista da Link responsável pelo levantamento, Mariana Taddeo, esses dados contraditórios mostram que ainda não é possível dizer que a medida do governo para estancar a fuga de dinheiro para os ADRs surtiu ou não efeito.
"No entanto, é inegável que o imposto de 1,5% no médio prazo tende a desestimular novos programas de ADRs por parte das companhias", diz Mariana. Os dados contraditórios do estudo são no mínimo reveladores, já que havia um consenso no mercado de que o novo imposto reduziria bem a demanda de ADRs, pelo menos no momento inicial da nova cobrança.
Num aspecto, o levantamento reforça as desconfianças de que os investidores estariam fugindo do IOF de 2% sobre as aplicações na Bovespa, comprando ADRs, cancelando-os para convertê-los em ações no Brasil, sem a incidência do IOF. Segundo o estudo da Link, entre 20 de outubro e 18 de novembro (um mês depois do IOF de 2%), houve R$ 107,63 bilhões em cancelamentos de ADRs dos dez programas mais líquidos comparados com apenas R$ 83,13 bilhões de cancelamentos em outubro, até dia 19 (ver gráfico abaixo).
Os números da própria bolsa mostram que os dois IOFs (o de 2% no Brasil e o de 1,5% nos ADRs) causaram um efeito negativo inicial, mas que depois os movimentos tendem a voltar ao normal. Segundo o diretor de renda variável da BM&FBovespa, Júlio Ziegelmann, antes do IOF de 2%, o volume de negócios com ações que possuem ADRs era 60% em Nova York e 40% no Brasil. Depois da cobrança, essa proporção passou a ser 65% fora e 35% aqui. No entanto, os percentuais já estão voltando para suas médias históricas. Com o IOF de 1,5% foi a mesma coisa. Inicialmente, o volume da Bovespa caiu 20%, mas já está se normalizando. "Assim como o giro caiu aqui, caiu também em Nova York, já que as operações de arbitragem entre os papéis e seus ADRs ficou 1,5% mais 'caro'", explica. Entretanto, ele lembra que, se não houvesse uma contrapartida de imposto no exterior, como é o IOF de 1,5%, o IOF de 2% causaria no médio prazo uma migração de volume da Bovespa para a bolsa de Nova York, o que dificilmente se reverteria.
Fonte: Valor Econômico