Por Dentro do Mercado: Focus afasta 'choque de juros' visto pelo DI
Sem sustentação técnica ou macroeconômica, os juros resolveram ontem subir no mercado futuro da BM&F. A taxa-spot para o fim do governo Lula avançou de 10,42% para 10,44% e o CDI previsto para o final de 2011 pulou de 11,82% para 11,87%. O reduzido volume negociado, de apenas 81 mil contratos, não legitimou o movimento ascendente. As altas, fruto de puxadas feitas pelos "comprados" em taxa nos momentos finais do pregão, não foram sancionadas pelo Boletim Focus divulgado ontem. Trata-se do primeiro Focus elaborado depois que o Banco Central divulgou, no dia 22, o seu Relatório de Inflação (RI) relativo ao último trimestre do ano. Fechado na véspera do Natal, dia 24, o Focus publicado ontem no site do BC reage ao RI de forma cautelosa e conservadora.
O RI até poderia autorizar alterações mais substantivas e profundas nas projeções de Selic e crescimento do Focus. Dependendo das mudanças nas estimativas de taxa básica, as de IPCA não precisariam se alterar, já que um aperto monetário maior teria a capacidade de segurar a inflação perto do centro da meta. Foi isso o que aconteceu no Boletim divulgado ontem. A expectativa de IPCA para o ano que vem - a que conta em termos de ações efetivas de política monetária - permaneceu estável em 4,50% pela segunda semana consecutiva, enquanto o prognóstico para os próximos 12 meses avançou levemente de 4,40% para 4,43%. Mas as expectativas de Selic e PIB para 2010 das cem instituições pesquisadas pelo BC parecem não ter sido afetadas pelas novas previsões do RI. A taxa básica estimada para o final do ano que vem manteve-se em 10,75%. Os economistas do mercado aparentam estar convencidos de que um ciclo de alta de dois pontos percentuais conseguirá dar conta das supostas pressões inflacionárias que decorrerão do crescimento previsto para 2010. O mercado futuro de juros da BM&F não concorda com esta previsão. A curva a termo embute taxa de 13,75% no fim de 2010.
O Focus sustentou a projeção de Selic apesar das várias advertências externadas pelo RI. Nele, o BC mostra que a projeção de IPCA do cenário de referência ficou, pela primeira vez desde que em janeiro flexibilizou a política monetária, acima dos 4,5% do centro da meta de inflação, tanto para 2010 como para 2011. Para uma taxa de câmbio de R$ 1,75, se a Selic não subir (permanecendo congelada em 8,75%), a inflação será de 4,6%. Recado claro e explícito: o Copom não deixará que isso aconteça e irá elevar a taxa básica. A principal discrepância entre o RI e o Focus se deu em relação ao PIB (até porque o BC não informa sua perspectiva de Selic para dezembro de 2010). Enquanto no Focus a expansão do PIB foi revista apenas timidamente, de 5% para 5,08%, o BC projeta crescimento de 5,8%.
A consultoria LCA vê três etapas no processo de reaperto da política monetária. A primeira - a mudança na retórica do BC - foi cumprida pelo RI. A segunda etapa será caracterizada por alterações nas regras do recolhimento compulsório sem, contudo, fazer com que esses depósitos retornem aos mesmos níveis observados em agosto de 2008, quando começaram a ser reduzidos para ampliar a liquidez anticrise. A revisão do afrouxamento teve início no dia 16, na esfera do CMN, por meio da decisão de estender apenas até abril do ano que vem a brecha, introduzida em dezembro de 2008, que permitia aos bancos diminuir suas provisões para inadimplência. A terceira etapa será a elevação em si da Selic. Ela acontecerá, na previsão da LCA, apenas no segundo semestre de 2010. A consultoria projeta um aperto total de 2,5 pontos, com a taxa chegando a 11,25% em abril de 2011.
No mercado de câmbio, o ingresso de capital, providenciado sobretudo por exportadores, continua proporcionando um fim de ano atípico. Ontem, no quarto dia de queda consecutiva do dólar, o volume de negócios no interbancário encostou nos US$ 4 bilhões. A moeda fechou em desvalorização de 0,66%, cotada a R$ 1,7410. Nesta curta última semana do ano, os indicadores a serem divulgados nos EUA não parecem munidos de poder de fogo capaz de mudar a rota dos ativos financeiros. Sai hoje o índice de preço de casas (S&P/Case&Shiller) referente a outubro e a confiança do consumidor apurada pelo Conference Board, já relativa a dezembro. Amanhã será divulgado o PMI de Chicago para o mês corrente e, na quinta-feira, fechando o ano, sairão os dados semanais de seguro-desemprego e o NAPM-Milwaukee de dezembro.
Fonte: Valor Econômico