Por Dentro do Mercado: Juro de 2012 cai com ata de inflação
O Banco Central divulgou ontem sua ata de inflação do terceiro trimestre e trouxe otimismo para o mercado, que passou a acreditar em crescimento forte em 2010 com inflação sob controle. Os analistas reforçaram sua tese de que os juros projetados para janeiro de 2012 no mercado futuro estão elevados e que a curva de juros está muito inclinada para cima. O resultado foi um tombo nas taxas de mais longo prazo, apesar da pequena alta nas de curto prazo. Os contratos de vencimento em janeiro de 2011 na BM&FBovespa passaram a projetar juros 0,29% maiores, de 10,36% ao ano, e as taxas projetadas para janeiro de 2012 caíram 0,59%, para 11,78% ao ano.
O mercado ficou surpreso com os números do BC, que estimou pela primeira vez o crescimento do Produto Interno Bruto para 2010, nos robustos 5,8%, depois do aumento de 0,2% neste ano. Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Safra de Investimento, lembra que, se o BC estiver certo, o PIB do quarto trimestre do ano teria de crescer 4,3% em relação ao trimestre anterior, com ajuste sazonal. "Parece muito difícil isso ocorrer", comentou. Ele nota que o cenário do BC para o IPCA "segue muito benigno", pois mostra que a inflação de 2011 fica abaixo da meta se o juro básico subir o que está previsto pelo mercado segundo a pesquisa Focus (200 pontos básicos, iniciando em junho, para fechar 2010 em 10,75%) e o dólar for a R$ 1,75 e R$ 1,80 no final de 2010 e 2011, respectivamente, ainda de acordo com o Focus. Mesmo no cenário de referência do BC (Selic em 8,75% ao ano, como hoje, e dólar a R$ 1,75) a inflação de 2011 permanece em 4,6%, em torno do ponto médio da meta, de 4,5%. Ele destaca também outros pontos que considera "interessantes", como o fato de a inflação de serviços não aparecer mais como risco relevante para o BC. Para Oliveira, a inflação de administrados de 4,0% estimada para 2010 "parece muito alta". Ele continua a trabalhar com 3,1% e com viés de baixa. O economista comenta que a previsão para o superávit primário do BC é de 3,3% do PIB em 2010 com a possibilidade de redução de até 0,68 ponto percentual em virtude de abatimento de projetos vinculados ao PAC. Mas, para 2011, a expectativa é de cumprimento da meta de 3,3% sem ajuste.
Ao longo do texto, comenta Oliveira, o discurso da autoridade monetária é mais "duro", o que parece ser uma "compensação pelos números benignos estimados pelo modelo". Para ele, o balanço de riscos claramente aponta para crescimento maior. "Por isso mantemos a estimativa de alta de 200 a 300 pontos básicos para a taxa Selic, com início do ciclo em meados de 2010, visando a inflação de 2011", diz.
Os economistas do BNP Paribas também apostam que, depois do relatório do BC, a puxada na Selic de 390 pontos básicos projetada pelos mercados futuros parece mesmo um exagero. Para eles, a alta de 200 pontos básicos até o final de 2010 estimada segundo o Focus é mais do que suficiente para trazer a inflação de volta à meta no final de 2011, considerando-se que o BC calcula um atraso de cinco a seis meses para que uma mexida na Selic impacte a inflação. "Observando o tom do relatório, fica claro que o BC não terá medo de puxar para cima as taxas de juros se o nível de atividade surpreender firmemente para cima", afirmam os analistas do BNP Paribas.
Ontem, nos Estados Unidos, os dados de vendas de casas já existentes mostraram uma recuperação mais forte do que a esperada na economia que ainda representa cerca de 30% do consumo mundial. O aumento em novembro foi de 7,4%, para um nível recorde em anos, em relação aos 2,5% de alta estimados pelo mercado. Os números contribuíram com o bom-humor e o dólar caiu 0,16%, para R$ 1,782.
Fonte: Valor Econômico